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Águas Vivas: Um Dom, Um Desafio

Foto do escritor: Caci Nobre
Caci Nobre
há 4 dias
5 min de leitura

Criação, justiça e a sede que nos devolve à Fonte


Fotografia: Yuri Meesen / Pexels.


“A água que eu lhe der tornar-se-á nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna.”

João 4:14

No Tempo da Criação de 2026, escolhemos deixar que a água nos acompanhasse durante várias semanas. A escolha não nasceu apenas de uma preocupação ambiental. Na Escritura, a água nunca serve apenas de cenário. Ela aparece no início da criação, atravessa a história da redenção, corre pelos salmos e pelos profetas, encontra Jesus junto de um poço e volta a surgir na visão da nova criação. Seguir esse curso é perceber que a água fala de dádiva, limite, justiça, sede e esperança.

Génesis abre com o Espírito de Deus pairando sobre as águas. O gesto bíblico é decisivo: a criação não começa como propriedade humana, matéria disponível à exploração ou território entregue ao mais forte. O mundo chega primeiro como dom. O Salmo 104 contempla fontes correndo entre os montes, animais saciando a sede e a terra recebendo chuva. Criaturas diferentes dependem da mesma generosidade. A água recorda que habitamos uma casa que não construímos e recebemos diariamente condições de vida que não produzimos sozinhos.

A confissão do Salmo 24 alcança diretamente a nossa relação com os recursos da terra: ao Senhor pertence a terra e tudo o que ela contém. Se a criação pertence a Deus, a água não pode ser reduzida a mercadoria, conveniência ou privilégio de quem dispõe de maior poder económico. Recebê-la como dádiva implica administrá-la com justiça. O cuidado da criação não precisa de uma moda ecológica para ganhar legitimidade cristã; nasce da própria doutrina da criação. Não somos proprietários absolutos do mundo. Somos criaturas dentro dele e responsáveis pelo que Deus confia às nossas mãos.

Essa responsabilidade desce rapidamente da teologia para os gestos comuns. A torneira aberta sem necessidade, o desperdício tratado como irrelevante, a indiferença diante da degradação de rios e fontes e o consumo que nunca pergunta pelo custo imposto à criação pertencem também ao campo da espiritualidade. A fé bíblica não separa facilmente aquilo que confessamos no culto da maneira como usamos o que foi criado por Deus. Gratidão sem cuidado corre o risco de tornar-se palavra religiosa sem corpo.

A caminhada, contudo, não pode terminar na consciência ambiental. Em João 4, Jesus senta-se cansado junto de um poço e pede água a uma mulher samaritana. O Filho de Deus conhece a sede do corpo. A encarnação impede qualquer espiritualidade que trate necessidades materiais como assuntos menores. O mesmo Cristo que fala da água que jorra para a vida eterna começa a conversa pedindo um copo de água. A cena une aquilo que tantas vezes separamos: corpo e alma, necessidade concreta e desejo profundo, criação e redenção.

A fé cristã perde a sua integridade quando fala da “água viva” e se torna indiferente a quem não tem água para beber. Perde também a sua profundidade quando reduz toda a linguagem da água a preservação ambiental e esquece a sede que nenhum recurso natural consegue saciar. Políticas responsáveis, cuidado dos ecossistemas e uso justo da água são indispensáveis, mas não produzem a reconciliação última de que a criação e o ser humano necessitam. Em Cristo, o cuidado do mundo criado e a esperança da redenção deixam de competir entre si.

A mulher de Samaria chegou ao poço para cumprir uma tarefa comum. Encontrou ali alguém que conhecia a sua sede num nível mais fundo do que ela própria conseguia nomear. Jesus não desprezou a água do poço; pediu dela. Também não permitiu que a conversa terminasse naquele balde. A água concreta tornou-se caminho para falar da vida recebida de Deus. O Evangelho faz esse movimento com frequência: toma pão, sementes, vinha, corpo, mesa, luz e água, e devolve essas realidades ao seu sentido mais profundo sem retirar delas a sua materialidade.

A própria Igreja carrega água na sua memória. O batismo une água e Palavra, corpo e promessa, pertença e graça. Nenhuma pessoa se batiza a si mesma. Recebemos um sinal que recorda uma verdade maior do que a nossa autonomia: a vida cristã começa no dom de Deus. A água sobre o corpo não é magia, nem mero adorno litúrgico. Ela aponta para Cristo, para a aliança e para uma identidade recebida numa comunidade que confessa a fé.

A Bíblia encerra o seu grande arco novamente junto das águas: “Então o anjo mostrou-me o rio da água da vida, claro como cristal, que saía do trono de Deus e do Cordeiro.” O rio do Apocalipse não nos autoriza a tratar com descuido os rios de agora. Pelo contrário, oferece uma visão do destino da criação reconciliada e devolvida à plenitude sob o senhorio de Deus e do Cordeiro. A esperança futura não diminui o cuidado presente; dá-lhe horizonte.

Entre as águas de Génesis e o rio do Apocalipse estamos nós, com uma torneira ao alcance da mão, rios que pedem proteção, povos marcados pela sede e hábitos que precisam de conversão. Também carregamos uma sede interior que aprende, muitas vezes tarde, que consumo, desempenho, reconhecimento e distração não se transformam em fonte. O cuidado com a água ensina simultaneamente responsabilidade e humildade: dependemos de um mundo que recebemos e de uma graça que não produzimos.

O Tempo da Criação oferece à Igreja a oportunidade de reaprender essa linguagem. Cuidar da água é conservar um recurso indispensável e, ao mesmo tempo, recordar quem somos diante do Criador: criaturas chamadas à responsabilidade, não consumidores absolutos de uma terra sem dono. A gratidão cristã abre os olhos para a beleza e também para a injustiça. Quem agradece pela água aprende a perguntar quem continua com sede.

A Escritura começa com águas sobre as quais o Espírito paira e termina com um rio que corre do trono de Deus e do Cordeiro. No meio desse caminho, Cristo senta-se junto a um poço e pede de beber. A imagem reúne a nossa condição inteira. Somos corpo que necessita de água, criação que precisa ser cuidada e alma que só encontra sua fonte em Deus. O convite final continua aberto: “Quem tem sede, venha.”


Publicado originalmente no Elos Presbiterianos, n.º 16, em 11 de setembro de 2026, no contexto do Tempo da Criação. Versão revista editorialmente para o site da autora.


Referências bibliográficas

A BÍBLIA para todos. Tradução Interconfessional. Lisboa: Sociedade Bíblica de Portugal, 1993/2009. Génesis 1:2; Salmo 24:1; Salmo 104; João 4; Apocalipse 22:1.

MOLTMANN, Jürgen. Deus na criação: doutrina ecológica da criação. Petrópolis: Vozes, 1993.

WRIGHT, Christopher J. H. A missão do povo de Deus: uma teologia bíblica da missão da igreja. São Paulo: Vida Nova, 2012.

BOFF, Leonardo. Saber cuidar: ética do humano, compaixão pela Terra. Petrópolis: Vozes, 1999.

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