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Quem Deus senta à mesa

Foto do escritor: Caci Nobre
Caci Nobre
há 7 dias
2 min de leitura

Atualizado: há 7 dias


Nem todos os nossos irmãos

cresceram debaixo do mesmo telhado.


Uns chegam quando a infância

já virou fotografia na gaveta

e as histórias mais antigas

precisam ser contadas do começo.


Não sabem o nome da professora

que nos fez chorar,

não conheceram a casa da avó,

não estavam no retrato

em que ainda tínhamos os joelhos ralados.


Mesmo assim, entram na história.


Primeiro vem uma conversa qualquer,

um café que esfria

porque ninguém percebeu a hora,

uma confidência dita sem planejamento.


Depois, um dia,

aquela pessoa atende o telefone

e descobre pelo nosso “alô”

que alguma coisa não está bem.


Amizade aprende a casa devagar.


Descobre a porta que emperra,

a xícara que preferimos,

o assunto que não suporta pressa

e aquele silêncio diante do qual

o melhor gesto é puxar uma cadeira.


Amigo conhece nossas rachaduras

sem fazer delas janela

para curiosidade alheia.


Guarda.


Mas também não passa a mão

sobre aquilo que precisa ser corrigido.


Senta perto.

Olha nos olhos.

Diz a verdade sem prazer em ferir

e continua ali depois de dizê-la.


Nos dias felizes,

sabe aumentar a mesa.


Nos outros, aparece de maneiras pequenas:

uma panela de sopa,

uma boleia até o médico,

a espera na estação,

uma mensagem quando já é tarde,

o cuidado de lembrar

da data que preferíamos esquecer.


Também existe aquela oração

que nunca ouvimos.

Descobrimos anos depois

que nosso nome atravessou muitas madrugadas

na boca de alguém

enquanto dormíamos.


Provérbios fala de um amigo

mais chegado que um irmão.

Provérbios 18:24


A vida me ensinou

a compreender o versículo.


O sangue nos entrega parentes.

O amor, em certos encontros,

faz parentesco por outros caminhos.


Um dia percebemos

que já não sabemos contar

determinado período da vida

sem mencionar aquela pessoa.


Ela estava na mudança.

No hospital.

Na cozinha depois do enterro.

Na notícia que ninguém sabia como dar.

Na comemoração pequena

que para nós significava o mundo.


Não resolveu tudo.

Ainda bem.


Amigo não recebeu de Deus

o trabalho de ser salvador.

Recebeu braços,

ouvidos,

tempo

e uma estranha capacidade de ficar

quando ficar custa alguma coisa.


Com o passar dos anos,

alguns nomes acabam misturados

às misericórdias que contamos.


Não porque nunca nos decepcionaram.

Nem porque nós nunca os ferimos.


Mas porque o perdão encontrou endereço,

a verdade conseguiu permanecer na sala

e o afeto sobreviveu

às versões menos bonitas de nós.


Esses amigos não possuem nosso sobrenome.

Possuem uma chave.


Entram sem cerimônia,

abrem o armário,

perguntam onde está o café

e sabem que não precisam ser visita.


Quando agradeço a Deus pela família,

aprendi a não olhar apenas

para a árvore genealógica.


Olho também para a mesa.


Algumas cadeiras foram ocupadas

por gente que chegou depois.

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