Quem Deus senta à mesa
Atualizado: há 7 dias
Nem todos os nossos irmãos
cresceram debaixo do mesmo telhado.
Uns chegam quando a infância
já virou fotografia na gaveta
e as histórias mais antigas
precisam ser contadas do começo.
Não sabem o nome da professora
que nos fez chorar,
não conheceram a casa da avó,
não estavam no retrato
em que ainda tínhamos os joelhos ralados.
Mesmo assim, entram na história.
Primeiro vem uma conversa qualquer,
um café que esfria
porque ninguém percebeu a hora,
uma confidência dita sem planejamento.
Depois, um dia,
aquela pessoa atende o telefone
e descobre pelo nosso “alô”
que alguma coisa não está bem.
Amizade aprende a casa devagar.
Descobre a porta que emperra,
a xícara que preferimos,
o assunto que não suporta pressa
e aquele silêncio diante do qual
o melhor gesto é puxar uma cadeira.
Amigo conhece nossas rachaduras
sem fazer delas janela
para curiosidade alheia.
Guarda.
Mas também não passa a mão
sobre aquilo que precisa ser corrigido.
Senta perto.
Olha nos olhos.
Diz a verdade sem prazer em ferir
e continua ali depois de dizê-la.
Nos dias felizes,
sabe aumentar a mesa.
Nos outros, aparece de maneiras pequenas:
uma panela de sopa,
uma boleia até o médico,
a espera na estação,
uma mensagem quando já é tarde,
o cuidado de lembrar
da data que preferíamos esquecer.
Também existe aquela oração
que nunca ouvimos.
Descobrimos anos depois
que nosso nome atravessou muitas madrugadas
na boca de alguém
enquanto dormíamos.
Provérbios fala de um amigo
mais chegado que um irmão.
Provérbios 18:24
A vida me ensinou
a compreender o versículo.
O sangue nos entrega parentes.
O amor, em certos encontros,
faz parentesco por outros caminhos.
Um dia percebemos
que já não sabemos contar
determinado período da vida
sem mencionar aquela pessoa.
Ela estava na mudança.
No hospital.
Na cozinha depois do enterro.
Na notícia que ninguém sabia como dar.
Na comemoração pequena
que para nós significava o mundo.
Não resolveu tudo.
Ainda bem.
Amigo não recebeu de Deus
o trabalho de ser salvador.
Recebeu braços,
ouvidos,
tempo
e uma estranha capacidade de ficar
quando ficar custa alguma coisa.
Com o passar dos anos,
alguns nomes acabam misturados
às misericórdias que contamos.
Não porque nunca nos decepcionaram.
Nem porque nós nunca os ferimos.
Mas porque o perdão encontrou endereço,
a verdade conseguiu permanecer na sala
e o afeto sobreviveu
às versões menos bonitas de nós.
Esses amigos não possuem nosso sobrenome.
Possuem uma chave.
Entram sem cerimônia,
abrem o armário,
perguntam onde está o café
e sabem que não precisam ser visita.
Quando agradeço a Deus pela família,
aprendi a não olhar apenas
para a árvore genealógica.
Olho também para a mesa.
Algumas cadeiras foram ocupadas
por gente que chegou depois.
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