Quando Deus Vence, Mulheres Proclamam

Uma leitura teológica de Salmo 68:11 sobre voz, anúncio e a vitória que pertence a Deus
“O Senhor dá a palavra; grande é o exército das mulheres que anunciam as boas-novas.”
Salmo 68:11
O Salmo 68 celebra a ação vitoriosa do Senhor na história. Seu centro não é a força de um povo que se exalta, mas o Deus que liberta, intervém e estabelece justiça. No coração desse poema surge uma frase que merece ser ouvida sem pressa: “O Senhor dá a palavra; grande é o exército das mulheres que anunciam as boas-novas.” A iniciativa pertence a Deus. A palavra é dele. A proclamação nasce como resposta ao que Ele fez.
Algumas traduções portuguesas apresentam o sujeito de modo neutro, como “os que anunciam”. O hebraico, contudo, conserva uma marca que importa para a leitura: hamevaserot é um particípio feminino plural do verbo basar, ligado ao anúncio de boas notícias e à proclamação de vitória. O salmista fala de mulheres anunciadoras. O dado gramatical não foi criado por uma agenda moderna; está no texto e pede a mesma honestidade exegética que exigimos em qualquer outra passagem das Escrituras.
Essa voz feminina não aparece isolada. Depois da travessia do Mar Vermelho, o texto de Êxodo coloca Miriam diante do povo: “Então Miriam, a profetisa, irmã de Arão, tomou o tamborim na mão; e todas as mulheres saíram atrás dela com tamborins e danças. E Miriam lhes respondia: Cantai ao Senhor, porque triunfou gloriosamente.” Miriam não oferece um comentário periférico ao acontecimento. Seu cântico interpreta teologicamente a libertação. O mar foi atravessado, o poder do opressor foi quebrado e a glória não pertence a Israel. A vitória pertence ao Senhor.
Em 1 Samuel 18, mulheres saem das cidades cantando depois da batalha. A cena guarda uma prática conhecida no antigo Oriente Próximo: mulheres participavam publicamente do anúncio da vitória. Dentro da fé de Israel, porém, esse gesto recebe uma densidade própria. A memória da vitória só é fiel quando não confunde o instrumento humano com o autor da libertação. O anúncio torna-se confissão.
O próprio vocabulário do Salmo abre um caminho maior. O verbo basar reaparece em passagens proféticas ligadas às boas notícias do reinado salvador de Deus, como Isaías 40 e 52. Na tradução grega das Escrituras hebraicas, essa família verbal aproxima-se de euangelizō, anunciar boa notícia, raiz que mais tarde será inseparável da linguagem do Evangelho. O fio não autoriza atalhos exegéticos, mas revela uma continuidade teológica bela: Deus age, a boa notícia é dada e uma comunidade recebe a responsabilidade de proclamá-la.
Esse movimento alcança o seu ponto mais luminoso na manhã da ressurreição. Em João 20, Maria Madalena encontra o Ressuscitado, recebe dele uma palavra e vai aos discípulos com a declaração que nenhuma comunidade cristã pode considerar pequena: “Vi o Senhor.” A vitória definitiva sobre a morte chega aos ouvidos dos discípulos pela voz de uma mulher. A cena não depende de concessão posterior da Igreja. Está na origem do anúncio pascal.
Do Mar Vermelho à manhã da Páscoa, a Escritura preserva mulheres que cantam, interpretam, testemunham e anunciam a ação de Deus. Reconhecer essa presença não exige forçar o texto; exige lê-lo inteiro. Também não pede uma romantização das mulheres, como se o sexo feminino conferisse virtude automática ou imunidade ao erro. A Bíblia não trabalha com idealizações desse tipo. O que ela faz é mais sério: inclui mulheres no testemunho público da obra divina e, em momentos decisivos, coloca a boa notícia nos seus lábios.
Essa leitura também corrige o modo como falamos de vitória. A Bíblia conhece guerras, conflitos e libertações históricas, mas o Evangelho não autoriza a Igreja a chamar de vitória de Deus qualquer triunfo político, militar, institucional ou pessoal que favoreça o nosso lado. A ressurreição estabelece o critério cristão. A vitória de Cristo não é a exaltação do vencedor sobre cadáveres de adversários; é a derrota da morte por aquele que entregou a própria vida. A proclamação cristã perde o centro sempre que transforma o nome de Deus em selo religioso para a vontade de poder.
O Salmo 68 continua exigente: “O Senhor dá a palavra.” A Igreja não possui a mensagem como propriedade privada, nem distribui voz como se fosse dona da revelação. Recebe a Palavra e aprende a servi-la. Esse princípio alcança homens e mulheres, púlpitos e mesas, lideranças e comunidades. Toda autoridade de anúncio é derivada, e toda proclamação cristã precisa ser examinada pela Palavra daquele que primeiro falou.
No Dia da Mulher, a passagem ganha uma ressonância particular. A melhor homenagem bíblica às mulheres não consiste em oferecer elogios genéricos sobre delicadeza, força ou capacidade de cuidar. Consiste também em escutar as mulheres que a própria Escritura apresenta falando de Deus, interpretando a libertação, proclamando a vitória e testemunhando a ressurreição. Miriam não é ornamento da narrativa do Êxodo. Maria Madalena não é detalhe sentimental da Páscoa. Suas vozes pertencem à memória da fé.
Uma comunidade fiel não precisa ter medo do que o texto bíblico revela. A humildade exegética começa quando permitimos que a Escritura desfaça leituras estreitas, inclusive aquelas que recebemos por tradição. O texto não se torna menos sagrado quando nos surpreende. Ao contrário, é nessa hora que recordamos que a Palavra não foi entregue para confirmar tudo o que já pensávamos.
O Senhor dá a palavra. Mulheres anunciam. A comunidade escuta. E a vitória continua pertencendo a Deus. Da praia onde Miriam ergueu o tamborim ao jardim onde Maria ouviu o próprio nome pronunciado por Cristo ressuscitado, a boa notícia atravessa gerações por vozes que Deus decidiu usar. A Igreja serve melhor ao Evangelho quando recebe essas vozes com a reverência que dedica ao texto que as preservou.
Publicado originalmente no Elos Presbiterianos, n.º 5, em 6 de março de 2026. Versão revista editorialmente para o site da autora.
Referências bibliográficas
A BÍBLIA para todos. Tradução Interconfessional. Lisboa: Sociedade Bíblica de Portugal, 1993/2009. Salmo 68:11; Êxodo 15:20–21; 1 Samuel 18:6–7; Isaías 40:9; 52:7; João 20:16–18.
HARRIS, R. Laird; ARCHER JR., Gleason L.; WALTKE, Bruce K. Dicionário internacional de teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1998.
KIDNER, Derek. Salmos 1–72: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1980.
COLE, R. Alan. Êxodo: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1980.
BRUCE, F. F. João: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1987.



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