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Quando Deus entra na lista de tarefas

Foto do escritor: Caci Nobre
Caci Nobre
9 de out.
2 min de leitura

“Marta, Marta, andas preocupada e agitada com tantas coisas,

quando uma só é necessária.”


Lucas 10.41-42


Uma rotina espiritual pode estar completamente preenchida e, ainda assim, deixar pouco espaço para uma presença verdadeira diante de Deus. Lemos a Bíblia, oramos, participamos do culto, servimos, respondemos às necessidades de outras pessoas e seguimos para a próxima obrigação. Tudo parece estar no lugar. O coração, porém, pode atravessar essas práticas sem realmente habitá-las.


Conheço bem a facilidade com que a fé entra na lista.

Leitura bíblica concluída. Oração feita. Culto preparado. Mensagem respondida. Mais uma necessidade atendida.


Aos poucos, aquilo que nasceu para nos conduzir à presença de Deus pode ser absorvido pela mesma lógica de produtividade que governa o restante da vida.


Marta costuma receber uma leitura injustamente simples. Ela trabalhava, Maria estava aos pés de Jesus e, portanto, contemplar seria espiritual enquanto trabalhar representaria distração. O próprio Evangelho desmente essa caricatura. Jesus serviu, enviou seus discípulos para servir e ensinou que o amor assume forma concreta.


O problema de Marta aparece nas próprias palavras de Cristo: ela estava preocupada e agitada com muitas coisas.


Jesus não olha apenas para suas mãos ocupadas. Ele nomeia aquilo que o excesso de ocupação produziu dentro dela.

Uma pessoa pode fazer a coisa certa com a alma no lugar errado.


Servimos ressentidos. Cuidamos dos outros enquanto negligenciamos aquilo que acontece dentro de nós. Preparamos uma mensagem sobre descanso com o coração funcionando em estado permanente de urgência. Abrimos a Escritura procurando alguma coisa para entregar a outra pessoa e, em algum ponto do caminho, deixamos de permitir que ela nos confronte primeiro.


A pressa religiosa é especialmente perigosa porque consegue vestir-se de fidelidade.


Uma pessoa sempre disponível para a igreja costuma ser admirada. Ninguém pergunta facilmente o que aquela disponibilidade está custando por dentro. O problema aparece quando dedicação passa a significar incapacidade de parar, quando qualquer limite produz culpa e quando descansar começa a parecer uma forma de infidelidade.


Jesus não precisava da exaustão de Marta para ser bem recebido naquela casa.

Também não precisa da nossa exaustão como prova de amor.


É possível continuar realizando todas as tarefas e, ao mesmo tempo, afastar-se interiormente do centro que dava sentido a elas. O perigo não está simplesmente em ter muito para fazer. Ele aparece quando nos acostumamos a fazer coisas para Deus sem permanecer com Deus enquanto as fazemos.


Maria sentou-se para ouvir. Aquele gesto não aboliu as responsabilidades da casa. Apenas colocou a presença de Cristo no lugar a partir do qual todas as outras coisas precisavam ser reorganizadas.


Nossa agenda cristã precisa nascer desse mesmo lugar.


Antes de perguntar quantas coisas estamos fazendo, convém perguntar o que essas coisas estão fazendo conosco. Estamos nos tornando mais atentos a Cristo, mais disponíveis para amar, mais verdadeiros diante de Deus? Ou apenas nos tornamos eficientes numa vida espiritual que já não conseguimos habitar?


Levo comigo uma pergunta particularmente incômoda para os dias cheios:


Ainda estou com Cristo enquanto faço aquilo que digo estar fazendo por Ele?


Essa pergunta não condena o serviço. Ela nos devolve ao centro.


Para guardar: A pressa religiosa consegue manter a aparência de fidelidade enquanto rouba de nós a atenção à presença de Cristo.

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