O nome de Amigo
Abraão deixou sua terra
seguindo uma promessa
que ainda não sabia desenhar.
Levou consigo perguntas,
longos anos de espera
e um nome que as Escrituras,
mais tarde,
colocariam junto ao seu:
amigo de Deus.
Tiago 2.23
Moisés entrava na tenda.
Lá dentro,
entre uma caminhada
e outra pelo deserto,
falava com o Senhor
como alguém
fala com um amigo.
Êxodo 33.11
Deus não ficava menor
para que isso acontecesse.
Moisés é que havia sido chamado
para mais perto.
Demorei a compreender essa diferença.
Aprendi cedo a reverenciar Deus.
Depois precisei aprender
que reverência não é distância.
O Santo continua Santo
quando escuta meu nome.
Sua grandeza não perde nada
quando me permite chegar.
Então veio Jesus.
Sentou-se à mesa,
recebeu perguntas,
repartiu o pão,
lavou pés.
E numa noite em que seus amigos
ainda não compreendiam
o que estava prestes a acontecer,
disse:
“Chamei-vos amigos.”
João 15.15
Volto muitas vezes a essa frase.
O Filho que conhece o Pai
abre lugar à mesa
para gente que ainda tem tanto a aprender.
Ser amigo de Deus
não é torná-lo parecido comigo.
É descobrir que posso chegar
sem preparar uma versão melhor de mim mesma.
Levo para a oração
o que sei dizer
e aquilo que ainda sai mal dito.
A gratidão bonita.
A pergunta difícil.
A irritação que preferia esconder.
A fé firme de ontem
e a pequena fé desta manhã.
Não preciso arrumar o coração
como quem corre pela casa
antes de a visita tocar a campainha.
Ele conhece a casa.
Sabe onde a madeira range,
qual janela deixo fechada,
que lembrança ainda muda
o tom da minha voz.
Conhece o quarto bem arrumado
que mostro às visitas
e a desordem que empurrei
para trás de outra porta.
E me recebe assim mesmo.
Foi então que minha oração
começou a desaprender discursos.
Alguns dias chegam cheios de palavras.
Noutros, abro a Bíblia,
leio duas linhase fico quieta.
Consigo apenas dizer:
Senhor, hoje não sei.
E permaneço.
Descobri que amizade
também conhece
essa espécie de conversa.
Duas presenças
juntas sem obrigação
de preencher o silêncio.
A amizade com Deus
não me entrega
seus segredos todos.
Continuo sem entender caminhos,
esperas,
portas que não se abriram
e respostas que vieram diferentes
daquelas pelas quais orei.
Abraão também esperou.
Moisés discutiu com Deus
mais de uma vez.
Os discípulos
caminharam ao lado de Jesus
sem compreender
boa parte do caminho.
A proximidade
nunca lhes deu o direito
de domesticar o mistério.
Deu-lhes companhia dentro dele.
É isso que desejo.
Conhecer sua voz
sem precisar de ruído.
Voltar à mesa.
Abrir as Escrituras
até que suas palavras encontrem
morada dentro de mim.
Chegar diante dele
sem ensaiar a conversa.
E ficar.
Depois de tantos anos de fé,
uma coisa ainda me espanta:
Deus me conhece inteira.
Conhece o que conto,
o que calei,
o que amadureceu
e o que ainda precisa de graça.
E Cristo,
sabendo tudo isso,
não me mantém à porta.
Abre lugar.
E diz uma palavra
que continuo recebendo
com reverência:
amiga.
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