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O nome de Amigo

Foto do escritor: Caci Nobre
Caci Nobre
9 de out.
2 min de leitura

Abraão deixou sua terra

seguindo uma promessa

que ainda não sabia desenhar.


Levou consigo perguntas,

longos anos de espera

e um nome que as Escrituras,

mais tarde,

colocariam junto ao seu:


amigo de Deus.

Tiago 2.23


Moisés entrava na tenda.


Lá dentro,

entre uma caminhada

e outra pelo deserto,

falava com o Senhor

como alguém


fala com um amigo.

Êxodo 33.11


Deus não ficava menor

para que isso acontecesse.


Moisés é que havia sido chamado

para mais perto.


Demorei a compreender essa diferença.


Aprendi cedo a reverenciar Deus.

Depois precisei aprender

que reverência não é distância.


O Santo continua Santo

quando escuta meu nome.


Sua grandeza não perde nada

quando me permite chegar.


Então veio Jesus.

Sentou-se à mesa,

recebeu perguntas,

repartiu o pão,

lavou pés.


E numa noite em que seus amigos

ainda não compreendiam

o que estava prestes a acontecer,

disse:


“Chamei-vos amigos.”

João 15.15


Volto muitas vezes a essa frase.


O Filho que conhece o Pai

abre lugar à mesa

para gente que ainda tem tanto a aprender.


Ser amigo de Deus

não é torná-lo parecido comigo.


É descobrir que posso chegar

sem preparar uma versão melhor de mim mesma.

Levo para a oração

o que sei dizer

e aquilo que ainda sai mal dito.


A gratidão bonita.

A pergunta difícil.

A irritação que preferia esconder.

A fé firme de ontem

e a pequena fé desta manhã.


Não preciso arrumar o coração

como quem corre pela casa

antes de a visita tocar a campainha.


Ele conhece a casa.

Sabe onde a madeira range,

qual janela deixo fechada,

que lembrança ainda muda

o tom da minha voz.


Conhece o quarto bem arrumado

que mostro às visitas

e a desordem que empurrei

para trás de outra porta.


E me recebe assim mesmo.

Foi então que minha oração

começou a desaprender discursos.

Alguns dias chegam cheios de palavras.

Noutros, abro a Bíblia,

leio duas linhase fico quieta.


Consigo apenas dizer:

Senhor, hoje não sei.

E permaneço.

Descobri que amizade

também conhece

essa espécie de conversa.


Duas presenças

juntas sem obrigação

de preencher o silêncio.


A amizade com Deus

não me entrega

seus segredos todos.


Continuo sem entender caminhos,

esperas,

portas que não se abriram

e respostas que vieram diferentes

daquelas pelas quais orei.


Abraão também esperou.

Moisés discutiu com Deus

mais de uma vez.


Os discípulos

caminharam ao lado de Jesus

sem compreender

boa parte do caminho.


A proximidade

nunca lhes deu o direito

de domesticar o mistério.


Deu-lhes companhia dentro dele.

É isso que desejo.


Conhecer sua voz

sem precisar de ruído.


Voltar à mesa.

Abrir as Escrituras

até que suas palavras encontrem

morada dentro de mim.


Chegar diante dele

sem ensaiar a conversa.

E ficar.


Depois de tantos anos de fé,

uma coisa ainda me espanta:


Deus me conhece inteira.

Conhece o que conto,

o que calei,

o que amadureceu

e o que ainda precisa de graça.


E Cristo,

sabendo tudo isso,

não me mantém à porta.


Abre lugar.

E diz uma palavra

que continuo recebendo

com reverência:


amiga.

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