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O amor também marca consulta

Foto do escritor: Caci Nobre
Caci Nobre
há 2 dias
8 min de leitura

Outubro Rosa, o cuidado do corpo e a fé que se senta ao lado




Escrevo pensando na mulher que tem um exame marcado e tenta afastar o pensamento dele para conseguir dormir. Penso também naquela que já recebeu um diagnóstico e procura uma maneira de o contar às pessoas que ama. Depois da consulta, o caminho para casa pode ser percorrido em silêncio, mesmo com alguém ao lado. Queria que este Outubro Rosa nos ensinasse a chegar mais perto, com delicadeza suficiente para ouvir o que ela consegue dizer e respeitar aquilo para que ainda lhe faltam palavras.

A rotina continua a pedir coisas. O trabalho espera uma resposta, a casa precisa de atenção, e pode ser difícil compreender como o dia segue tão parecido enquanto o futuro se tornou incerto. Nessa altura, uma presença tranquila pode ajudar: alguém que pergunte como foi a noite e tenha tempo para escutar; que escute o medo sem tentar corrigi-lo. Uma mulher que sofre merece companhia também nos dias em que não sabe pedir por ela.

Penso ainda em quem foi adiando a consulta, ocupada com as necessidades de todos. A mãe sabe a data do exame do filho. A filha acompanha a medicação dos pais. Na agenda de quem cuida, o nome de todos encontra lugar; o seu próprio vai sendo escrito a lápis, para poder ser apagado. Se reconhecemos alguém nessa mulher, podemos ajudá-la a guardar um tempo para si. A vida dela também foi confiada ao nosso amor.

No relato bíblico da criação, Deus forma o ser humano do pó da terra e lhe comunica vida. Precisar de alimento e descanso pertence à condição de criatura. Uma mulher pode orar com sinceridade e precisar de uma consulta; servir com dedicação e chegar ao fim do dia sem forças. Deus conhece a pessoa inteira que se ajoelha diante dele, inclusive o corpo cansado que a sustenta. A necessidade de cuidado encontra lugar nessa relação com o Pai.

O Filho de Deus assumiu a nossa humanidade. Conheceu a fome, sentiu o peso de uma caminhada e precisou de repouso. A nossa salvação passa pelo corpo de Cristo entregue na cruz e pela sua ressurreição. Por isso, a mulher enferma pode ser recebida na comunidade cristã com atenção àquilo que está a viver no corpo. A dor merece ser escutada. O descanso pode ser protegido por alguém que assuma uma tarefa. A ternura ganha forma no cuidado que chega onde uma palavra, sozinha, não consegue chegar.

Paulo escreve:

“Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus.”

1 Coríntios 6:20,

O apóstolo está a tratar da conduta sexual dos cristãos. Ao recordar que pertencem a Cristo, retira o corpo do lugar de objeto disponível para qualquer uso. Aplicar essa passagem ao cuidado da saúde exige respeitar o seu sentido: o pertencimento orienta a responsabilidade. Usá-la para insinuar que uma mulher adoeceu porque cuidou mal do corpo seria impor-lhe uma culpa que o texto bíblico não autoriza.

Receber esse pertencimento pode ajudar-nos a olhar para a própria vida com mais carinho. O corpo que precisa de um exame é o mesmo com que abraçamos quem amamos e atravessamos os nossos dias. Podemos escutá-lo sem vergonha. Se o medo tem dificultado a marcação de uma consulta, contar a alguém de confiança pode ser o começo. Essa pessoa pode ficar connosco durante o telefonema ou acompanhar-nos até à porta do consultório. O gesto fica menos pesado se for partilhado.

No cancro da mama, reconhecer alterações e ter acesso à investigação diagnóstica faz diferença. Um nódulo novo, mudanças na pele ou no mamilo e secreção espontânea merecem avaliação profissional. Conhecer as próprias mamas ajuda a perceber mudanças, mas não substitui a mamografia nem outros exames indicados. O rastreio destina-se a pessoas sem sintomas; um sinal suspeito deve ser avaliado sem esperar pelo próximo convite. A escolha dos exames considera a idade, o risco individual e as recomendações do país. A deteção precoce pode permitir tratamentos em fases mais iniciais e melhorar os resultados.¹

A doença envolve diferentes fatores e pode surgir mesmo em quem acompanha a própria saúde.¹ À mulher que recebeu o diagnóstico, devemos oferecer espaço para falar do que sente, sem a cercar de perguntas sobre o que teria feito de errado. Ela já tem decisões difíceis diante de si. Precisa poder chegar à consulta e voltar para casa sabendo que será tratada com respeito.

Na comunidade da fé, gostaria que encontrasse essa mesma liberdade. Que pudesse dizer “estou com medo” e continuar a ser recebida como alguém que confia em Cristo. Que as suas perguntas fossem ouvidas com paciência. Uma oração pode sair entre lágrimas, e o choro pode continuar depois do amém. Deus conhece o que estamos a pedir mesmo nas palavras que não conseguimos terminar.

Diante da morte de Lázaro, o Evangelho regista:

“Jesus chorou.”

João 11:35

Cristo sabia o que faria e, ainda assim, deixou que a dor daqueles que amava o alcançasse. Encontramos nas suas lágrimas uma proximidade que consola. O Senhor ouviu o lamento de uma família e chorou junto dela. Podemos aprender com Ele a ficar perto sem preencher cada silêncio, a permitir que alguém fale outra vez daquilo que ainda lhe dói.

No estudo Quando Cristo chega depois, escrevi: “Maria não precisou deixar de chorar para ser recebida.”² Volto a essas palavras ao pensar numa mulher que tenta contar o que ouviu no consultório. Ela pode precisar de parar no meio de uma frase. Podemos esperar. Pode querer contar tudo de novo, porque ainda procura compreender. Podemos escutar de novo. O tempo que lhe oferecemos também é uma maneira de dizer que a sua vida nos importa.

O Senhor entrou no sofrimento que veio vencer. A cruz impede que associemos automaticamente dor e abandono de Deus. A ressurreição sustenta a esperança de um corpo liberto da morte, embora ainda atravessemos tratamentos e perdas. Podemos pedir cura com sinceridade e recorrer à medicina com gratidão. A investigação científica e o trabalho dos profissionais de saúde merecem o nosso apoio. Receber ajuda por esses meios também faz parte do cuidado com a vida.

Durante o tratamento, o espelho pode tornar-se um encontro difícil. A perda do cabelo ou uma cirurgia na mama podem atingir formas antigas de reconhecer a própria beleza. Uma roupa querida pode passar a vestir de outro modo. O gesto de despir-se pode pedir uma delicadeza que antes não era necessária. Quem acompanha essa mulher precisa respeitar o tempo que ela leva para reconhecer-se no corpo depois de uma cirurgia, sem lhe apressar a tristeza com um elogio.

Ela pode lamentar o que mudou e conversar com a equipa de saúde sobre as suas escolhas. Pode desejar voltar a usar uma roupa de que gosta ou precisar de ajuda para encontrar outra em que se sinta confortável. O cuidado alcança também essas coisas pequenas, que pertencem à intimidade e têm um peso que só ela conhece. Perguntar o que deseja, em vez de decidir por ela, protege a sua liberdade.

A dignidade recebida na criação acompanha essa mulher. Para quem pertence a Cristo, a filiação continua durante a quimioterapia, com a mesma firmeza com que existia antes do diagnóstico. As alterações no corpo não diminuem a sua dignidade nem o amor que merece receber. Ela continua a ter opiniões e assuntos sobre os quais gostaria de conversar. Perguntar pelo livro que está a ler ou por algo que a fez rir abre espaço para a vida que continua a acontecer durante o tratamento.

Paulo escreve:

“Nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor!”

Romanos 8:39

Essa certeza é pronunciada num capítulo em que a criação geme e os filhos de Deus aguardam a redenção do corpo. O sofrimento ainda faz parte da experiência de quem crê. O amor de Deus em Cristo alcança a pessoa inteira, inclusive nos dias em que ela não consegue organizar os próprios sentimentos numa oração. A enfermidade não recebe poder para desfazer esse pertencimento. A esperança repousa no Senhor ressuscitado, e não na capacidade de prever o resultado do próximo exame.

É com essa esperança que podemos acompanhar a mulher no dia em que ela se sente disposta e no dia em que só deseja descansar. Se a palavra “guerreira” lhe faz bem, podemos respeitar a maneira como escolhe contar a sua experiência. Também podemos ampará-la se estiver cansada de ser forte. Quem vive com doença avançada precisa de continuar a receber visitas e incluída nas conversas da comunidade. E a memória de quem morreu deve ser guardada com amor, sem insinuar que lhe faltou vontade de viver.

Paulo oferece à comunidade uma orientação concreta:

“Levai as cargas uns dos outros e assim cumprireis a lei de Cristo.”

Gálatas 6:2

Carregar uma parte do peso começa por perguntar o que está a ser difícil. O transporte para o hospital pode ser uma preocupação. Uma despesa pode ter desorganizado as contas. Ficar com uma criança durante a consulta ou preparar uma refeição conforme as necessidades da pessoa pode aliviar um dia inteiro. E, se ela desejar companhia, podemos oferecer um tempo que não venha acompanhado da obrigação de conversar.

O carinho também sabe guardar confidências. Antes de partilhar notícias da sua saúde ou pedir oração num grupo, precisamos saber o que ela deseja tornar público. A vontade de ajudar pode ser conduzida por uma pergunta simples: “Como preferes que eu faça?” A resposta dá-nos uma oportunidade de cuidar dela do modo como consegue receber.

Depois das primeiras mensagens, os dias de consulta continuam a chegar. “Posso levar-te na quinta-feira?” oferece uma ajuda que a mulher consegue aceitar ou recusar. Pode dizer que sim, pedir outra companhia ou preferir estar sozinha naquele dia. Ouvir a sua escolha com carinho permite que peça ajuda noutra ocasião, sem receio de nos magoar.

Na sua Cantata da Paz, Sophia de Mello Breyner Andresen denuncia a violência e recusa a indiferença:

“Vemos, ouvimos e lemos

Não podemos ignorar.”

Escritos contra a guerra e a injustiça, esses versos recusam a comodidade de saber do sofrimento e seguir adiante. Outubro Rosa pede atenção também a quem encontra dificuldades para chegar aos cuidados de saúde. Incentivar uma mulher a fazer o exame exige perguntar se consegue chegar até lá. Para quem não pode faltar ao trabalho ou não tem transporte, marcar a consulta envolve obstáculos que a boa vontade individual não resolve. O amor ao próximo procura conhecer essas dificuldades e organizar a ajuda possível.

Se está a atravessar um tratamento, queria dizer-lhe com carinho: a sua vida merece cuidado hoje, com o corpo e as forças que tem. Pode confiar a alguém uma tarefa que sempre esteve nas suas mãos. E, se desejar falar da noite difícil que passou, merece encontrar uma pessoa que a escute sem lhe pedir que tranquilize todos os outros. Receber cuidado também pede tempo, e quem se aproxima precisa respeitar a maneira como consegue recebê-lo.

O laço rosa ganha sentido no exame que deixa de ser adiado e na visita que se repete. A novidade do diagnóstico passa depressa para quem observa de fora; para a mulher, o tratamento continua. O amor pode voltar na semana seguinte, perguntar se ela conseguiu descansar e escutar a resposta. Pode sentar-se ao lado enquanto o nome dela ainda não foi chamado e, ao sair, abrir a agenda: “Na quinta-feira, venho contigo.”


Bibliografia essencial

BÍBLIA SAGRADA. Almeida Revista e Corrigida. 1 Coríntios 6:20; João 11:35; Romanos 8:39; Gálatas 6:2.

¹ INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER. Câncer de mama: versão para profissionais de saúde (https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/cancer/tipos/mama/versao-para-profissionais-de-saude). Fatores de risco, sinais e sintomas e deteção precoce.

2ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. Cantata da Paz (https://natura.di.uminho.pt/~jj/musica/html/fanhais-cantataParaAPaz.html). Texto disponível no arquivo de canções da Universidade do Minho.

Fontes consultadas em 12 de outubro de 2026.

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