Medo: a primeira coisa que Adão confessou.
Cacilene Nobre

«No dia em que eu temer, hei de confiar em ti.»
Salmo 56:3
Qual é o teu único consolo, na vida e na morte? Que não pertenço a mim mesmo, mas ao meu fiel Salvador Jesus Cristo.
Catecismo de Heidelberg
Em mais de vinte e cinco anos a ouvir pessoas, aprendi que o medo raramente se apresenta com esse nome. Chega disfarçado de pressa, de controlo, de irritação, de um silêncio que dura demasiado à mesa.
A Bíblia reconhece-lhe a cara logo no princípio. Depois de Adão e Eva falharem, Deus
desce ao jardim ao cair da tarde, à procura deles. E Adão responde com a primeira confissão que a Escritura guarda da boca de um ser humano:
«E chamou o Senhor Deus a Adão, e disse-lhe: Onde estás? E ele disse: Ouvi a tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e escondi-me.» (Génesis 3:9-10)
Olha a ordem das coisas. Primeiro o medo, depois o esconderijo. E olha a pergunta de Deus. Não pergunta porque tens medo. Pergunta onde estás. Antes de qualquer lição sobre o medo, Deus sai à procura de quem se escondeu.
O medo tem um serviço a prestar. Dentro da cabeça, uma pequena região chamada amígdala funciona como um sino de alarme. Toca antes de pensarmos, o coração acelera, os músculos apertam, o corpo prepara-se para fugir ou lutar. Num incêndio, é uma bênção. O problema começa quando o sino não pára de tocar.
Quem vive muito tempo em alarme paga a conta no corpo e na alma. Dorme mal. Esquece-se das coisas. Custa-lhe decidir, porque a parte do cérebro que pesa e planeia fica sem forças. A atenção estreita-se como um túnel e passamos a ver só o que ameaça. Em casa, o medo vira desconfiança, ou vontade de controlar tudo e todos. Diante de Deus, vira o que foi no jardim: um esconderijo feito de folhas.
Isto não nos assusta. Os reformadores ensinavam que toda a verdade é de Deus, venha de onde vier, e que o Criador da alma é também o Criador do corpo que treme. A ciência honesta descreve a obra do Senhor sem a substituir. Por isso vamos olhar para três pessoas da Bíblia e ver o que Deus fez com o medo delas.
Elias. Acabara de ver o fogo de Deus descer do céu, no monte Carmelo, diante de todo o povo. Bastou uma ameaça da rainha Jezabel para o profeta fugir pelo deserto. Sentou-se debaixo de um arbusto e pediu a Deus que o deixasse morrer:
«Já basta, ó Senhor; tira a minha alma, pois não sou melhor do que meus pais.» (1 Reis 19:4)
Olha a resposta de Deus. Nenhum sermão. Manda um anjo, e o anjo traz comida:
«E eis que um anjo o tocou, e disse-lhe: Levanta-te, e come. E olhou, e eis que à sua cabeceira estava um bolo cozido sobre as brasas, e uma botija de água. E comeu, e bebeu, e tornou a dormir.» (1 Reis 19:5-6)
Primeiro o pão e o sono. Só depois, na montanha, Deus fala, e fala baixinho:
«E depois do fogo, uma voz mansa e delicada.» (1 Reis 19:12)
Antes de lhe dar uma missão, Deus cuidou de um corpo cansado. Uma noite mal dormida e um estômago vazio fazem o sino do medo tocar mais alto, e a ciência de hoje confirma o que o Senhor fez ali. Depois deixou Elias dizer o seu medo por palavras, uma vez e outra vez, sem o interromper. Pôr em palavras o que sentimos acalma o alarme. E por fim lembrou-lhe que não estava sozinho:
«Também deixei ficar em Israel sete mil, todos os joelhos que se não dobraram a Baal.» (1 Reis 19:18)
Sete mil. E um companheiro, Eliseu, chamado para caminhar ao lado dele.
Pedro. Jesus chamou-o para andar sobre o mar, e ele andou, enquanto olhava para o Mestre. Depois:
«Mas, sentindo o vento forte, teve medo; e, começando a ir para o fundo, clamou: Senhor, salva-me! E logo Jesus, estendendo a mão, pegou nele, e disse-lhe: Homem de pouca fé, por que duvidaste?» (Mateus 14:30-31)
O vento já lá estava antes do primeiro passo. O que mudou foi o sítio para onde Pedro olhava. Um coração assustado só enxerga a ameaça, e o resto do mundo desaparece. Agora olha o gesto de Jesus. Não dá uma conferência sobre a fé. Estende a mão e pega nele, e só depois pergunta. Quem já atravessou uma crise sabe como isto é verdade: uma mão que segura vale mais do que mil explicações, e os investigadores já viram que o cérebro assustado se acalma quando segura a mão de alguém de confiança. A fé reformada acrescenta uma coisa serena: não é a força dos nossos dedos que nos segura, é a mão de Cristo, que não larga.
Jesus. O terceiro é o que mais importa. Na noite antes da cruz, no jardim das oliveiras, o Filho de Deus sentiu medo:
«E tomou consigo Pedro, e Tiago, e João, e começou a ter pavor e a angustiar-se. E disse-lhes: A minha alma está cheia de tristeza até à morte; ficai aqui, e vigiai.» (Marcos 14:33-34)
Olha o que ele faz com o medo. Não o esconde. Conta-o aos amigos. Leva-o ao Pai, com o nome mais terno que havia na sua língua, e entrega-se:
«E dizia: Aba, Pai, todas as coisas te são possíveis; passa de mim este cálice; todavia não seja o que eu quero, mas o que tu queres.» (Marcos 14:36)
Jesus teve medo e não pecou. Sentir medo não é falta de fé. Fé é o que fazemos com o medo, e Jesus levou o seu até ao Pai. A carta aos Hebreus conta porque foi até ao fim:
«Visto como os filhos participam da carne e do sangue, também ele participou das mesmas coisas, [...] e livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão.» (Hebreus 2:14-15)
Por baixo de todos os nossos medos mora o medo da morte, o último, o maior. Foi nessa raiz que Jesus meteu a mão, e a arrancou.
E nós, o que fazemos com o nosso medo? Destes três retratos nasce um caminho simples.
Cuida do corpo, como Deus cuidou de Elias. Dorme, come, respira devagar, alonga a expiração, e o corpo percebe que o perigo passou. A Bíblia diz o mesmo à sua maneira: «Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus» (Salmo 46:10).
Diz o teu medo a Deus, com as palavras exatas, como fazem os Salmos. Repara no que David escreveu no versículo do início. Não escreveu «se eu temer». Escreveu «no dia em que eu temer». Não negou o medo. Pôs o medo e a confiança lado a lado.
Vira os olhos para quem é maior do que o vento. Paulo escreveu a uns amigos assustados:
«Não estejais inquietos por coisa alguma; antes as vossas petições sejam em tudo conhecidas diante de Deus pela oração e súplica, com ação de graças. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos sentimentos em Cristo Jesus.» (Filipenses 4:6-7)
A palavra que ele usa para guardar é a dos soldados que montam guarda às portas de uma cidade. A paz de Deus faz de sentinela do teu coração.
Sai do esconderijo. O medo cresce quando fugimos dele e encolhe quando o enfrentamos em boa companhia. Conta o que sentes a alguém de confiança, como Elias tinha os seus sete mil.
E ancora tudo numa certeza que nenhuma técnica oferece. O teu Pai cuida de ti ao pormenor:
«Não se vendem dois pardais por um ceitil? E nenhum deles cairá em terra sem a vontade de vosso Pai. E até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados.» (Mateus 10:29-30)
O cristão não vive à mercê do acaso. Pertence, na vida e na morte, ao seu fiel Salvador, e recebeu um Espírito que não o faz escravo do medo:
«Porque não recebestes o espírito de escravidão, para outra vez estardes em temor, mas recebestes o Espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai.» (Romanos 8:15)
Se o medo for tão pesado que te rouba o sono e os dias, procura um médico ou um psicólogo. Não é falta de fé. É receber, com gratidão, um dom que Deus espalhou pelo mundo, como quem toma um remédio e agradece ao Senhor.
Vivemos num tempo em que o sino nunca pára de tocar. A notícia de hoje é sempre pior do que a de ontem, e o telemóvel apita até na mesa de cabeceira. No meio desse ruído, o evangelho diz uma coisa pequena e teimosa. Deus continua a perguntar onde estás, e agora a pergunta tem o rosto de Jesus, que entrou num jardim de oliveiras para te ir buscar até ao fundo do teu medo. Ele conhece-nos por dentro:
«Porque ele conhece a nossa estrutura; lembra-se de que somos pó.» (Salmo 103:14)
Não esperes ficar corajoso para te aproximares dele. Aproxima-te com o coração a bater.
Onde estás a esconder-te, e de quê? Esta semana, diz o teu medo em voz alta a Deus, com as palavras exatas, e conta-o a uma pessoa de confiança. Depois escolhe uma coisa pequena que o medo te proíbe e faz só essa, de mão dada com Cristo.
Bibliografia
Bíblia Sagrada, tradução Almeida Corrigida. Génesis 3:7-10. 1 Reis 19:1-18. Salmos 46:10; 56:3; 103:14. Mateus 10:29-31; 14:22-33. Marcos 14:32-42. Romanos 8:15. Filipenses 4:6-7. Hebreus 2:14-15; 4:15.
CALVINO, João. As Institutas, livro II, capítulos 2 e 16.
Catecismo de Heidelberg, perguntas e respostas 1 e 26 a 28.
DAMÁSIO, António. O Erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano.
LEDOUX, Joseph. O Cérebro Emocional: os misteriosos alicerces da vida emocional.
LLOYD-JONES, D. Martyn. Depressão Espiritual: suas causas e sua cura.
SAPOLSKY, Robert M. Por que as zebras não têm úlceras?



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