E se Deus não falar como falou da ultima vez?
Depois do fogo ouviu-se o murmúrio de uma leve brisa.”
1 Reis 19.12
Uma experiência verdadeira com Deus pode, sem percebermos, tornar-se uma medida injusta para todas as experiências que vêm depois.
Deus nos encontra de determinada maneira e guardamos aquele momento com gratidão. Uma oração nos atravessa. Uma passagem bíblica parece ter chegado exatamente na manhã em que precisávamos dela. Uma resposta vem com uma clareza que dificilmente esqueceremos.
O perigo começa quando a memória deixa de ser testemunho e se transforma em exigência.
Se Deus falou assim ontem, esperamos que fale assim outra vez.
Elias conhecia o extraordinário. No Carmelo, viu fogo cair diante de uma multidão. Pouco depois, encontramos o mesmo profeta esgotado, tomado pelo medo e desejando morrer. No Horebe, passam vento, terremoto e fogo. A narrativa afirma que o Senhor não estava naquelas manifestações. Depois, Elias ouve o murmúrio de uma leve brisa.
O Deus do Carmelo continuava sendo o Deus do Horebe. Elias é que precisava aprender a reconhecê-lo sem exigir a repetição do cenário anterior.
A passagem expõe uma pergunta que raramente fazemos: quantas vezes confundimos a fidelidade de Deus com a repetição de uma experiência?
Se uma oração veio acompanhada de lágrimas, as orações secas começam a parecer menores. Se recebemos determinada resposta depressa, a demora seguinte soa como distância. Se uma fase da caminhada foi marcada por grande emoção, uma fé mais silenciosa pode parecer perda.
Pouco a pouco, começamos a procurar a experiência antiga em vez de procurar Deus.
A saudade de momentos preciosos da caminhada é legítima. O problema surge quando transformamos essas lembranças numa espécie de padrão e passamos a exigir que o presente reproduza o passado.
Deus não precisa repetir o cenário para permanecer fiel.
Cristo continua sendo suficiente num culto em que o coração transborda e numa terça-feira comum em que abrimos a Bíblia e precisamos perseverar para chegar ao fim da leitura. Sua presença não aumenta quando sentimos mais, nem diminui quando sentimos menos.
A experiência tem lugar na fé cristã. Afeto, alegria, consolo, lágrimas e assombro pertencem à nossa humanidade diante de Deus. O erro começa quando concedemos às sensações uma autoridade que elas nunca receberam.
O sentimento pode acompanhar uma experiência com Deus. Não pode governar aquilo que sabemos ser verdadeiro sobre Ele.
A maturidade começa a aparecer quando conseguimos agradecer pelo fogo de ontem sem exigir fogo hoje.
Uma das perguntas mais sérias da caminhada cristã é esta: se Deus não se manifestar da maneira à qual me acostumei, ainda serei capaz de reconhecê-lo?
A resposta precisa nascer menos da memória das experiências e mais do conhecimento do seu caráter.
O risco é ficarmos tão ocupados esperando que Deus repita ontem que deixemos passar a maneira pela qual Ele está nos encontrando hoje.
Para guardar: Uma experiência passada pode testemunhar a fidelidade de Deus. Jamais deve se tornar o molde ao qual exigimos que Ele se adapte.

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