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Deus me quis mulher

Foto do escritor: Caci Nobre
Caci Nobre
9 de out.
2 min de leitura

Antes do primeiro vestido,

da trança torta feita às pressas,

do espelho onde um dia comecei

a reparar no meu corpo,

Deus já sabia.


Mulher.


Antes que alguém me ensinasse

o que esperava de uma mulher,

eu já existia no querer de Deus.


Depois o tempo veio fazer seu trabalho.


Deixou sangue,

cicatrizes,

mudanças que ninguém pergunta

se queremos receber.


Trouxe força em dias sem heroísmo,

cansaço guardado para depois

e um rosto que, com os anos,

precisou aprender outra maneira de ser bonito.


Nunca precisei pedir desculpas a Deus

pelo corpo em que me deu vida.

Com estas mãos trabalhei,

preparei comida,

segurei outras mãos,

carreguei bolsa, livros, crianças, perdas.


Com estes joelhos orei.

Com estes pés atravessei lugares

onde pensei que não conseguiria chegar.


E também pensei.

Li.

Perguntei.

Estudei.

Voltei às Escrituras muitas vezes

e descobri que a verdade não tem medo

das perguntas de uma mulher.


Deus nunca precisou diminuir minha inteligência

para preservar minha feminilidade.


Algumas mulheres dão à luz filhos.

Outras dão à luz livros,

comunidades,

casas onde alguém encontra lugar à mesa,

trabalho bem feito,

coragem repartida numa tarde difícil.

Algumas conhecem muitas dessas fecundidades

na mesma existência.


O ventre é sagrado,

mas não é a única medida

da fecundidade de uma mulher.


Abro a Bíblia e elas estão lá.


Débora sob um palmeira,

enquanto gente vinha procurá-la por justiça.


Hulda diante dos enviados do rei,

falando a Palavra sem baixar os olhos.


Rute curvada entre as espigas

numa terra que não era sua,

sem saber que a sua fidelidade pequena

chegaria à genealogia de Cristo.


Maria entregando o próprio corpo

para que o Verbo habitasse entre nós.


Marta com o irmão ainda no túmulo,

dizendo quem Jesus era

antes de ver a pedra sair do lugar.


E Maria Madalena,

cedo demais para qualquer esperança,

chorando diante de um sepulcro vazio

até ouvir Jesus dizer seu nome.


Nenhuma precisou deixar de ser mulher

para obedecer a Deus.


Nem eu.


Agora envelheço.

A pele já contou parte da história.

O cabelo começou a guardar seus prórpios sinais.

O espelho conhece um rosto

que os vinte anos não poderiam conhecer.

E estou em paz com isso.

Não quero regressar à mulher que fui

para reconhecer beleza na que sou.


Posso falar com firmeza

sem masculinizar minha voz.


Posso ser terna

sem entregar minha coragem.


Posso cansar.

Posso precisar de ajuda.


Posso ocupar o lugar para o qual fui chamada

sem fingir que cheguei ali por engano.


Deus me quis mulher.


Não para ornamentar a vida de outra pessoa.

Não para existir à margem

daquilo que Ele próprio me chamou a fazer.


Mulher.


Criada à sua imagem.


Com um corpo que envelhece,

uma mente que continua aprendendo,

uma história que não cabe

nas expectativas que fizeram para mim.


Cristo me conhecia inteira.

É desse lugar que quero viver.

sem representar uma feminilidade

que alguém desenhou antes de me conhecer.


Sem pedir licença para os dons

que Deus mesmo colocou em minhas mãos.


Recebo minha vida assim:

com marcas,

perguntas,

alegrias,

anos.


Mulher diante de Deus.

E grata

porque Ele nunca me quis outra coisa.






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