A superfície não conta toda a história
“Quer o semeador esteja acordado ou a dormir,
ela nasce e cresce, noite e dia, sem ele saber como
isto se passa.”
Marcos 4.27
A espera se torna especialmente difícil quando Deus não nos dá notícias do processo. Suportaríamos melhor certos períodos se conseguíssemos perceber algum movimento: uma mudança pequena, uma porta começando a abrir, uma conversa diferente, qualquer sinal que nos permitisse dizer que a história continua avançando.
No fundo, gostaríamos de receber uma espécie de boletim da providência.
Jesus, porém, contou uma parábola em que o homem semeia e perde de vista justamente a parte que mais gostaria de acompanhar. A semente desaparece na terra. Ele dorme, acorda, atravessa os seus dias e não sabe explicar como o crescimento acontece. Durante algum tempo, quem olha para o campo vê apenas terra.
Esse detalhe nos confronta porque frequentemente julgamos Deus pela superfície. Se a situação continua igual, concluímos que nada mudou. Se a resposta não chegou, começamos a suspeitar que a oração ficou parada em algum lugar. Quando não conseguimos compreender o caminho, tratamos nossa falta de informação como se fosse prova de que Deus também deixou de agir.
A superfície nunca contou a história inteira.
José recebeu sonhos e depois conheceu o poço, a escravidão, uma falsa acusação e a prisão. Nenhuma dessas etapas se parecia com o futuro que lhe havia sido mostrado. Se ele julgasse a fidelidade de Deus por fotografias isoladas de sua história, encontraria imagens suficientes para concluir que tudo dera errado.
Fazemos algo parecido quando transformamos um dia ruim numa interpretação de toda a história.
Precisamos, porém, colocar um limite nessa leitura. A fé cristã não ensina que cada desejo guardado no coração seja uma semente prestes a florescer. Deus não assinou todas as expectativas que criamos. Algumas orações receberão um sim, outras encontrarão uma porta fechada, e certas respostas chegarão de uma forma que hoje sequer reconheceríamos como resposta.
Nossa segurança repousa em algo muito mais firme do que a realização dos nossos planos: a providência de Deus continua ativa mesmo quando seus bastidores permanecem fora do nosso alcance.
Por isso, a espera cristã não se sustenta na pergunta “Quando vou finalmente enxergar alguma coisa?”, mas no caráter daquele em quem depositamos nossa confiança. A fé amadurece enquanto obedecemos sem conhecer o capítulo seguinte e recusamos transformar demora em abandono.
Desenvolvemos uma arrogância discreta quando imaginamos que, se Deus estivesse realmente trabalhando, certamente perceberíamos.
A parábola de Jesus desarma essa pretensão. O semeador desconhece o processo, mas a semente cresce.
Tal como aquele campo, nossa vida pode apresentar apenas a superfície de uma história que ainda não sabemos ler. Não precisamos inventar promessas que Deus não fez, mas também não devemos declarar a obra encerrada apenas porque os nossos olhos não alcançam o que Ele está fazendo.
A terra vista de cima jamais consegue contar tudo.
Para guardar: Nossa falta de notícias sobre a providência nunca significou falta de governo da parte de Deus.

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